Em nosso último artigo vimos que pelo Batismo somos chamados à santidade. Este é o sonho e a visão de Deus para nós: “e nos escolheu nele antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis diante de seus olhos.” – Ef. 1,4. Somos, pois, vocacionados a esta vida divina, isto é, a esta vida segundo a vontade do Senhor e, ao mesmo tempo, convocados a sermos colaboradores seus na edificação da sua Igreja, na construção da Civilização do Amor. Assim, quer que sejamos instrumentos eficazes em suas mãos, afim de que muitos outros reconheçam, igualmente, a sua vocação, o seu chamado pessoal e irrevogável a esta vida em abundância. Que honra o Senhor querer contar conosco para sermos colaboradores seus em sua obra… Eis-nos aqui, Senhor! Só por ti, Jesus, queremos nos consumir!

 

Vimos, ainda, que Deus não nos pede coisa alguma sem, antes, nos dar condições de correspondermos a seu chamado. Para a nossa santificação pessoal, portanto, contamos com os Dons Infusos ou Hierárquicos (veja artigo publicado em 17/10/2007). Para sermos instrumentos seus na construção da Civilização do Amor (“ajudantes de Jesus”), somos agraciados com ferramentas úteis denominadas Dons Carismáticos ou Efusos ou, ainda, apenas Carismas. Nas palavras do Catecismo da Igreja Católica (n. 2003), Carisma é uma graça especial e significa favor, dom gratuito, benefício; ordenam-se, todos, à graça santificante, ou seja, os recebemos em nosso Batismo, e têm como meta o bem comum da Igreja. Acham-se a serviço da caridade e se esta não estiver sempre viva e presente, vãos serão aqueles (cf. I Cor. 13, 1-3). Retratam a graça batismal em ação, impulsionando-nos a servir ao Senhor com prudência e dignidade, visando à edificação do outro, isto é, ao bem dos homens e às necessidades do mundo, não dispensando, quaisquer deles, a reverência e submissão aos Pastores da Igreja. São, ainda, uma capacitação dada pelo Espírito Santo para fazermos as mesmas obras que Jesus fazia e ainda maiores (cf. Jo. 14, 12), tudo nEle, por Ele e para Ele; algo essencial à Evangelização.

 

Falar de Dons Carismáticos tem tudo a ver com a Igreja; esta é essencialmente carismática desde as suas orignes, a começar pelo seu fundador, Jesus Cristo. No Livro dos Atos dos Apóstolos e pelos escritos biográficos e reflexivos de tantos Padres da Igreja dos séculos I ao VII, vemos que os carismas eram comuns no início da Igreja. A RCC não traz, portanto, a novidade dos carismas, mas como seu próprio nome sugere, veio renovar esta realidade carismática que se encontrava um tanto “adormecida”, mas nunca apagada no seio da Mãe Igreja. Portanto, nossos Grupos de Oração têm uma responsabilidade: precisam ser autenticamente carismáticos, segundo o mesmo Espírito que opera tudo em todos para o proveito comum (cf. I Cor. 12, 6-7), sem nos esquecermos, contudo, que, os carismas devem nos conduzir sempre a Jesus, centro e Senhor de nossas vidas. Assim, os carismas não giram em torno de si mesmos, ou do Homem, mas facilitam a experiência amorosa com o Senhor dos senhores.

 

São Paulo nos ensina acerca de nove carismas na I Carta aos Coríntios nos Capítulos de 12 a 14. No entanto, a Igreja reconhece, hoje, mais de trezentos outros carismas que, igualmente, ordenam-se à edificação do Reino de Deus e à missão evangelizadora no mundo. Aqui, vamos refletir acerca dos nove Dons Carismáticos elencados pelo Apóstolo Paulo (cf. I Cor. 12, 7-11) e que são os mais utilizados na RCC, em especial em nossos Grupos de Oração. Para fins didáticos, podemos dividi-los em Dons de Revelação, de Inspiração e de Poder.

 

Vejamos cada um desses três grupos:

 

Dons de Revelação

 

1.       Palavra de Ciência – é a revelação divina acerca de um fato ou situação ocorridos no passado ou que continuem acontecendo no presente, com o intuito de trazer à tona a ferida, a dor, a falta, a verdade, afim de que haja a liberação da graça e do poder de Deus sobre a situação. É o diagnóstico divino acerca de determinada situação. Veja a revelação divina na vida da Samaritana em Jo. 4, 17-19.

 

2.       Palavra de Sabedoria – é a revelação divina que nos mostra a melhor maneira de agirmos para que a vontade de Deus se cumpra em nossa vida e sejamos felizes. Dá-nos a direção, indica-nos o que fazer e como fazer para obtermos a melhor solução. É a orientação, o prognóstico divino. Atenção: não é adivinhação ou previsão de futuro. Veja a orientação de Deus para Felipe em At. 8, 26-29.

 

3.       Discernimento dos espíritos – discernir significa distinguir, perceber claramente, ir a fundo. Esse dom nos leva à percepção de qual espírito está movendo uma situação, pessoa, inclusive a nós mesmos. Revela se é o Espírito Santo, o espírito humano ou o espírito do mal que está movendo a situação ou pessoa. É, portanto, o guardião de todos os carismas, na medida em que equilibra as ações e gera maturidade no exercício dos carismas. Veja a percepção de Paulo, mesmo numa situação aparentemente de boa intenção em At. 16, 16-18.

 

 

Dons de Inspiração

 

4.      Profecia – é a palavra divina em transmissão humana para o momento presente. É Deus falando aqui e agora para uma ação instantânea, com o intuito de consolar, exortar e edificar os homens. É, portanto, dirigida a uma pessoa, por exemplo, em sua Oração Pessoal, ou a uma essembléia com sói acontecer em nossos Gruposem Língua Portuguesa) e a proclame à assembléia que entenderá plenamente a mensagem divina. Precisamos ter sempre o discernimento para termos a percepção de qual espírito está nos movendo a profetizar. E acreditem, essa percepção é nítida, tanto para quem proclama, quanto para quem escuta. Veja o que o Apóstolo Paulo nos ensina acerca da Profecia em I Cor. 14, 3. 29-33. de Oração. É transmitida sempre na 1ª pessoa do singular, tendo em vista que é Deus mesmo falando através do profeta, que, por sua vez, tem livre arbítrio para proclamar ou reter a profecia. Deus não subjuga ninguém. O Homem não perde o controle de suas faculdades no exercício de qualquer carisma. O que profetiza, antes, recebe a inspiração divina em seu coração e em suas faculdades mentais e a proclama para a assembléia, quando for o caso. Atente-se que a profecia é exclusiva para aquele momento e para um determinado povo, grupo, etc, não sendo genérica para qualquer grupo. Pode ser proclamada em linguagem inteligível, ou seja, no idioma da assembléia ( em vernáculo), ou em línguas; neste último caso, será necessária a manifestação de um outro carisma, a Interpretação das Línguas. A profecia quando proclamada em línguas, requer que a mesma pessoa ou outra(s) receba a mesma inspiração só que, agora, em linguagem vernacular (no nosso caso,

 

5.       Línguas – trata-se de uma poderosa oração ou mensagem divina em linguagem não vernacular, ou seja, que não se pode entender com as nossas faculdades; mas com gemidos inefáveis exprimidos pelo Espírito Santo. É o próprio Espírito Santo quem louva, adora, intercede por nós ao Pai e ao Filho, pois não sabemos orar como convém. É sempre controlável e depende diretamente da disponibilidade de nossos aparelhos respiratório e fonador. Isso significa dizer que só iremos orar em línguas se produzirmos algum som e movermos nossa língua, deixando o restante por conta do Espírito Santo. Muitas pessoas pensam que a boca começará a se mover sozinha e a voz sairá independentemente de um comando cerebral e isso, em verdade, não acontece, graças a Deus. É muito bom saber que o próprio Espírito Santo ora em nós com gemidos inexprimíveis; é bom abandonarmos deliberadamente nosso intelecto e nos largarmos nas correntes do Espírito. Damos a matéria-prima (ar, voz, língua) e o Espírito ora poderosamente. Há uma profunda diferença entre orar em línguas (cf. Rm. 8, 26) e o falar em línguas; este último, como já visto no dom da profecia, é uma mensagem profética em linguagem não vernacular, o que necessitará do dom da Interpretação das Línguas. Há, ainda, o cantar em línguas. Ocorre muitas vezes em nossos Grupos de Oração, quando todos estão orando em línguas e alcançam uma harmonia musical, um único tom, tal qual uma orquestra; há ocasiões até em que a assembléia cessa o seu canto e uma ou duas pessoas continuam cantando em línguas por pequeno intervalo de tempo, louvando e adorando o Senhor. Cremos que o maior ensinamento de São Paulo acerca do Dom de Línguas encontra-se na maravilhosa e reveladora passagem de Rm. 8, 26.

 

6.      Interpretação das Línguas – Não é uma tradução. Quando uma profecia é proclamada em línguas, ou seja, com gemidos inefáveis, ininteligíveis, faz-se necessária a utilização do dom da Interpretação das Línguas, em que uma ou mais pessoas, respeitando-se a ordem, irá proclamar aquela mesma profecia em vernáculo, isto é, em linguagem inteligível, no idioma do grupo. É imprescindível que haja quem interprete uma profecia proclamada em línguas, sob pena de o povo não entender a mensagem divina a ele dirigida. Veja o que Paulo nos ensina acerca da Interpretação das Línguas em I Cor. 14, 13. 27-28.

 

 

 

Dons de Poder

 

7.       Fé – trata-se de uma fé expectante, ou seja, aquela que leva à confiança e entrega total a Deus. Difere, portanto, da Virtude Teologal da Fé, que significa crer nas verdades reveladas por Deus; difere, ainda, da fé confiante, isto é, aquela que cresce na medida em que vou conhecendo mais a Deus. É a certeza daquilo que ainda não vejo, a certeza da atuação do poder divino. Veja a manifestação do dom carismático da fé na vida do homem leproso em Mt. 8, 1-3.

 

8.       Cura – é a manifestação do poder e da glória de Deus para restaurar a saúde do homem total. Deus quer o Homem sarado, tal qual fora criado. O pecado, as circunstâncias da vida, os erros de relacionamento, a falta de perdão, o descuido com a saúde, etc, vão desfigurando em nós a imagem e semelhança para com Deus. Pelo dom carismático da Cura, Deus, usando de misericórdia para conosco, vem nos restaurar, a partir da oração de seus servos que, por caridade impõem as mãos sobre aquele irmão que Deus quer seja curado interior ou fisicamente.

 

9.       Milagres – “o impossível Ele pode realizar.” É a intervenção sobrenatural e inexplicável de Deus em determinada situação, ou seja, algo que seria impossível de acontecer torna-se realidade pela atuação do poder divino. Significa, portanto, a mudança da ordem natural, a partir da oração confiante de um ou mais de seus servos que, com caridade pedem a intervenção sobrenatural de Deus sobre determinada situação e isso ocorre. Veja o dom de milagres sendo manifesto por Jesus na vida de um paralítico em Jo. 5, 6-9.

 

 

E tantos outros dons nos são dados pelo Senhor para bem cumprirmos a missão que nos foi confiada pelo próprio Jesus. É preciso, somente, termos prudência, discernimento, reverência e abertura de coração para os exercermos com toda a dignidade que requerem as coisas de Deus. Lembremos, ainda, do que São Paulo nos ensina acerca de nosso relacionamento com o Espírito Santo: “Não contristeis (entristecei) o Espírito; não resisti ao Espírito; não extingui o Espírito.”

 

Todo esse ensino deve nos levar às seguintes reflexões:

 

1.       Como tenho exercido os carismas que me foram dados pelo Senhor? Com amor, discernimento, humildade e reverência ou os estou banalizando, ou enquadrando-os numa espécie de “rotina”?

 

2.       Meu Grupo de Oração tem sido autenticamente carismático?

 

 

Tenha uma boa reflexão!

 

Para a Glória do Senhor!

 

 

 

 

Vinícius Rodrigues Simões.

Coord. Estadual do Ministério de Formação – RCC/RJ