Um jornal de hoje traz uma matéria que me chamou a atenção. Está surgindo nova profissão, a de amigo profissional, com remuneração por hora de companhia. Fique desde logo claro, para evitar mal-entendidos, que na prestação de serviço não está incluído nenhum aspecto sexual. Nem se trata de qualquer tipo de acompanhamento psicológico. É pura e simples oferta de companhia, de conversa, de atenção, de escuta paciente, de partilha de pontos de vista sobre os assuntos do momento, de acompanhar em compras ou passeios. Enquanto possível, o que mais se possa aproximar do que chamamos de amizade. A primeira consideração é que, se há oferta, se presume também a existência de procura. A existência de muitas pessoas solitárias, pelos mais diversos motivos, que procuram alguém que, pelo menos de começo, se pareça um pouco com um amigo ou amiga.

Os antigos, que gostavam de idéias claras, diziam que amizade é um amor desinteressado, entre pessoas iguais, sem dependência mútua, mas com a partilha mútua de bens. Na Bíblia encontramos muito sobre a amizade. Temos, por exemplo, o capítulo sexto do Eclesiástico: “Se quiser um amigo, coloque-o à prova, e não vá logo confiando nele. …Amigo fiel é proteção poderosa, e quem o encontrar, terá encontrado um tesouro. Amigo fiel não tem preço, e o seu valor é incalculável. Amigo fiel é remédio que cura, e os que temem ao Senhor o encontrarão. Quem teme ao Senhor tem amigos verdadeiros, pois tal e qual ele é, assim será seu amigo…”

Mas, por que há gente sem amigos? Parece evidente: ou porque não sabe abrir-se para a amizade, ou porque não sabemos ser amigos desinteressados. Às pessoas que ainda não sabem abrir-se para a amizade, podemos e devemos oferecer amizade. Sendo amadas, aprenderão a amar. De nossa parte, temos de aprender o que significa amar desinteressadamente, ser amigo sem nada esperar em troca, a não ser que o outro seja feliz. E para fazer alguém feliz não precisa muito, ou pelo menos de começo podemos oferecer até muito pouco. Olhar de quem percebe o outro; ouvidos abertos para confidências, se necessário, mas sempre dispostos a ouvir até simples prosa sem maiores pretensões; tempo para simplesmente estar ao lado; palavras adequadas ao momento, mas palavras simples, não impositivas. Pouco, muito pouco é o que temos e podemos oferecer. Certamente não seremos amigos profissionais, mas certamente seremos amigos amigos.

 
Pe. Flavio Cavalca