Esse o título da matéria na revista, não sei se de deslumbramento, de ligeira ironia ou de disfarçada blasfêmia. O texto diz que “cientista transforma uma bactéria em outra. É o primeiro passo em direção à biologia sintética, a criação de novas formas de vida em laboratório”. Continua dizendo que o cientista está quase a ponto de criar um ser vivo artificial. A ilustração, montagem fotográfica de quase meia página, mostra o cientista com ares de demiurgo, tendo uma representação de células a pairar sobre a mão, estendida num gesto criador.

Mais adiante o feito ganha proporções mais modestas. Não se trata de criação de um novo ser vivo, mas apenas de “transformar uma espécie de bactéria em outra”, transportando todo o DNA de um organismo para outro. Bactéria, aliás, das mais simples biologicamente. Mas, não vem ao caso entrar em pormenores. Sem negar a importância do feito, eu queria apenas dizer que a história lembrou-me uma anedota lida em alguma revista muito tempo atrás. Era mais ou menos assim:

Um cientista confiante apresentou-se para desafiar o Criador:
−Senhor, afinal posso competir contigo. Posso criar um ser humano a partir do simples barro.
O Criador, paciente como sempre, concordou: − Tudo bem. Vamos começar.
O cientista todo lampeiro: − Pois não, Senhor, mas onde está o barro para a gente começar?
Um sorriso leve nos lábios do Criador marcou suas palavras cheias de uma mansidão infinita:

− É. Aí é que está a dificuldade. Encontrar o barro com o qual começar.

Pe. Flavio Cavalca