Teologia litúrgica e política, crise da liturgia e mistagogia são algumas questões que o carmelita Jesús Castellano, consultor da Congregação para a doutrina da Fé, compartilhou nesta entrevista. O padre Castellano é professor na Faculdade Pontifícia Teresianum de Roma e também é consultor em outras congregações da Santa Sé como a da Doutrina da Fé, do Clero e dos Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica.

É certo que estamos em um momento de crise saudável da liturgia?

Padre Castellano: Os Padres do Sínodo do mês de outubro passado preocuparam-se muito por dar novamente esplendor e beleza à liturgia. Um dos temas mais importantes são as proposições que falam da mistagogia. Uma palavra muito bela da antiguidade cristã que compreende a iniciação catequética, a digna celebração dos mistérios e a assimilação na vida. Falou-se muito da arte de celebrar. Creio, pois, que uma saudável crise da liturgia tem de nos levar a conhecer melhor o que celebramos, a celebrar de uma maneira mais digna o mistério de Cristo em nossa vida e a assimilar o que celebramos, para manifestar na vida o que recebemos no sacramento.

Jesus era um “liturgo”?

Certamente era. Assim o chama a Carta aos Hebreus, mas com uma conotação muito especial. Jesus faz de toda sua vida uma liturgia, transmite-nos a palavra e a santidade do Pai com todas suas obras de amor para com os homens e leva-os até o Pai com sua oração, sua oblação e sua obediência ao culto de amor.

Por isso o mistério pascal – desde a Ceia até a Cruz e a Ressurreição – é o cume da liturgia de Cristo, de sua vida vivida como uma liturgia agradável ao Pai e perfeitamente santificadora. Este é o sacerdócio e o culto de Cristo.

A liturgia cristã é o memorial, a celebração ritual, com palavras, gestos orações, da vida de Jesus, de seus mistérios, e de modo particular de seu mistério pascal.

A liturgia cristã é a celebração da própria vida de Cristo, dos sinais sacramentais que nos deixou, dos mistérios que viveu e agora nos oferece para que os vivamos.

O senhor alude a uma “liturgia viva”. Crê que em alguns casos a liturgia não está suficientemente viva?

Uma liturgia viva, tal como eu a vejo e tento celebrar é uma liturgia na qual damos em primeiro lugar um valor primordial à vida de fé, esperança e amor, compartilhados. É a liturgia que tem uma vitalidade no Espírito Santo, ante a presença de Cristo, em comunhão com o Pai, em uma consciência de celebrar com toda a Igreja, na comunhão dos santos.

A partir desta condição indispensável, a liturgia viva é a que valoriza a palavra, os gestos, a oração, todo o mundo simbólico do culto cristão, em uma harmonia de ortodoxia e ortopraxis dos textos e ritos que nos propõe a Igreja, com uma dignidade e beleza capazes de evangelizar o mundo de hoje, que ainda pode saborear a beleza de Deus e recuperar o sentido do mistério que o envolve.

O Papa Bento XVI desde pequeno saboreava a liturgia com os missais alemães e se interessou pelo movimento litúrgico. Em que consistia este movimento?

O movimento litúrgico na Alemanha foi todo um ressurgir de iniciativas para conhecer melhor e celebrar de uma forma mais consciente a liturgia da Igreja, favorecer a participação dos fiéis e recuperar os tesouros da Igreja dos primeiros séculos.

O movimento litúrgico foi muito positivo no âmbito litúrgico e pastoral e deu um novo impulso a uma vida cristã mais centrada na Bíblia, no mistério pascal de Cristo, na iniciação cristã, na recuperação dos tempos litúrgicos. Um mestre do pensamento de Ratzinger na liturgia foi Romano Guardini.

Como estão relacionadas liturgia e política?

É necessário entender bem o que é política. Se se entende, como o faz o Papa em sua última encíclica, como uma dimensão da caridade, que influi na vida da sociedade para ordená-la segundo as exigências do Reino dos céus, dilata-se no amor a dignidade de todos os filhos de Deus, se é o compromisso de um mundo novo, segundo a vontade do Pai e a doutrina do Evangelho, então a liturgia leva como conseqüência a uma “caridade política”, como a chamou Pio XI. Em meu livro cito uma famosa frase de São João Crisóstomo que convidava a viver a caridade que vem da Eucaristia: viver a caridade com os irmãos “para que a terra se converta em céu”. Não é utopia pensar que o Reino de Deus começa nesta terra quando se vive na experiência cotidiana o que se celebra na liturgia.