Sete de Setembro é o dia da pátria, o Dia da Independência é o orgulho da nação. Porém, talvez nem todos saibam que, de uns anos para cá, nesta mesma data comemora-se o “Grito dos Excluídos”. O que significa isso? “O Grito é uma grande manifestação popular para denunciar todas as situações de exclusão e assinalar as possíveis saídas e alternativas. Antes de tudo, é uma dor secular e sufocada que se levanta do chão. Dor que se transforma em protesto, cria asas e se lança no ar”, conforme seus organizadores. Este ano, o Grito terá como tema: “Isto não Vale. Queremos participar nos destinos da nação”. Todos nós estamos certos que em nossa sociedade ainda existem muitas situações que continuam gritando, clamando, pedindo atenção para que todos se sintam independentes e orgulhosos do país em que vivemos.

Os clamores na Bíblia

Perante certas situações com que somos confrontados nos vem espontâneo um grito, um clamor, que pode ser de alegria ou tristeza (pedido de auxílio). A Sagrada Escritura não é indiferente a esta expe­riência humana. A linguagem do grito, do clamor não é uma linguagem estranha na Bíblia. Pelo contrário, uma rápida leitura nos mostra como é uma linguagem recorrente e cheia de significado. Um dos textos mais impressionantes é o do livro do Êxodo 2, 23: “Aconteceu, depois de muitos dias, que morrendo o rei do Egito, os filhos de Israel suspiraram por causa da servidão, e clamaram; e o seu clamor subiu a Deus por causa de sua servidão”. A opressão a que o povo de Israel fora sujeito durante sua permanência no Egito tornara-se insuportável, não dava mais para agüentar aquela situação. Perante este drama, o povo de Israel grita e clama a Deus.
 
Pedidos de auxílio ao Senhor estão presentes em muitos outros textos. Salomão em sua oração reza: “Volve-te, pois, para a oração de teu servo, e para a sua súplica, ó Senhor meu Deus, para ouvires o clamor e a oração que o teu servo hoje faz diante de ti”. Salomão suplica a Deus que escute o seu clamor (1Reis 8, 28). Mas é, sobretudo, nos Salmos que esta linguagem adquire um significado todo especial. Sendo orações, algumas bem pessoais, apresentam os gritos e os clamores do povo. Como na oração da manhã do Salmo 5: “Atende à voz do meu clamor, Rei meu e Deus meu, pois a ti orarei” (Sl 5, 2). São vários os Salmos que repetem este pedido para que Deus escute o clamor do povo (Sl 17, 1; 18, 6; 34, 15, entre outros).
Até agora vimos como na Sagrada Escritura encontramos a linguagem do grito/clamor presente em vários textos, vimos como este grito vem de uma experiência que não é possível suportar mais e, portanto, se pede auxílio a Deus para que venha remediar essa situação. Confrontado com os gritos do seu povo, a Bíblia nos relata que este Deus não permanece indiferente ao sofrimento humano, pelo contrário, os gritos e os clamores do povo chegam até Ele e são ouvidos. Novamente o texto do Êxodo demonstra ser precioso: “Tenho visto atentamente a aflição do meu povo, que está no Egito, e tenho ouvido o seu clamor por causa dos seus exatores, porque conheci as suas dores. E agora, eis que o clamor dos filhos de Israel é vindo a mim, e também tenho visto como os egípcios os oprimem” (Ex 3, 7-8). Estamos perante um texto impressionante. Deus escutou o grito, viu a aflição. Deus não permanece indiferente! O clamor chegou até Deus, e agora? Agora é tempo de ação, Deus envia um libertador ao seu povo para que a situação seja mudada radicalmente. Também no primeiro livro de Samuel encontramos a mesma situação. Deus escuta o clamor do seu povo oprimido: “… porque o seu clamor chegou a mim” (1Sam 9, 16).

Deus lembra do seu povo

Na Bíblia encontramos também a promessa de que Deus sempre escutará o grito do seu povo: “… não se esquece do clamor dos aflitos” (Sl 9, 12). O Salmo 145 é mais evidente: “Ele cumprirá o desejo dos que o temem; ouvirá o seu clamor, e os salvará” (Sl 145, 19). Estamos perante um Deus que verdadeiramente não permanece indiferente, mas um Deus que escuta e se coloca em movimento para que a situação possa ser mudada e assim cesse o grito do aflito. Vivemos hoje confrontados com tantos que gritam. Gritam por dignidade, direitos, trabalho, justiça e oportunidades. Perante tais gritos não podemos ficar indiferentes, o texto de Provérbios nos adverte: “O que tapa o seu ouvido ao clamor do pobre, ele mesmo também clamará e não será ouvido” (Prov 21, 13). Ser missionário é escutar os gritos dos aflitos e estar ao seu lado na luta por um mundo mais justo para todos. No dia Sete de Setembro, à luz da Palavra de Deus, participemos nos destinos da nossa nação com o Grito dos Excluídos e ouvidos atentos aos clamores de milhões de brasileiros e brasileiras.

Patrick Gomes Silva

Missionário e membro da equipe de formação do Centro de Animação Missionária José Allamano, SP.