Lucas, convertido do paganismo, não pertenceu ao grupo dos discípulos imediatos de Cristo, foi o autor do terceiro Evangelho e dos Atos dos Apóstolos. São Paulo mostra sua nobre profissão ao se dirigir assim aos colossenses: “Lucas, o querido médico, vos saúda e Demas também” (Cl 4,14).
 
Ele acompanhou Paulo a Filipos, “cidade do primeiro distrito da Macedônia e colônia romana” (At 16,12) e aí ficou. Seis anos mais tarde ele se junta de novo a seu mestre quando este passa de novo em Filipos, para levar a Jerusalém o dinheiro recolhido na Macedônia (At 20,5-6). Fez com Paulo uma viagem à capital do Império: “Quando chegamos a Roma, Paulo recebeu licença para morar em domicílio próprio com soldado para o guardar” (At 28,16).
 
No segundo cativeiro de São Paulo em Roma ele lá estava pois o Apóstolo escreveu a Timóteo: “Somente Lucas está comigo. Procura Marcos e traze-o contigo, porque poderá me ajudar no ministério (2 Tm 4,11). Na carta a Filémon, escrita em Roma, lemos: “Epafras que partilha comigo a prisão por Cristo, e os meus colaboradores Marcos, Aristarco, Demas e Lucas, te mandam muitas lembranças” (v. 23-24). São Lucas usou diversas fontes para escrever o seu Evangelho. Ele mesmo assevera: “Muitos se propuseram escrever uma narração dos fatos que aconteceram entre nós, como nos transmitiram os que deles foram testemunhas oculares desde o começo e, depois, se tornaram ministros da Palavra” (1,1-2).
 
Ele compulsou documentos escritos como o Evangelho de São Mateus e São Marcos, e escutou pessoas, entre as quais os apóstolos. Utilizou-se destes fatos com maestria e reescreveu o que leu e ouviu com suma fidedignidade e raro talento. No que tange aos dois primeiros capítulos de São Lucas, Ortensio da Spinetoli observa que “ainda que apresente traços originais, não habituais numa obra histórica, o Evangelho da infância (Lc 1-2) não tem as características de uma composição lendária. Sem dúvida, quem não aceita o sobrenatural, considera o conjunto das narrativas de Lucas 1-2 como míticas. Todavia, tal prevenção preconcebida não pode ser levada em séria consideração. Por isto a historicidade de Lucas 1-2 não pode ser seriamente posta em dúvida.
 
Do ponto de vista puramente literário, as narrações não têm o colorido e as características de uma obra de ficção. Os protagonistas reaparecem em outros escritos de historicidade não dúbia (os Evangelhos) e se movem em uma moldura topográfica suficientemente garantida”. Sobre estes episódios estas observações de Estêvão Bettencourt: “A infância de Jesus em São Lucas é narrada de maneira intencionalmente artificiosa. De um lado, refere-se fatos reais, pois São Lucas logo no prólogo de seu Evangelho faz questão de se apresentar como historiador criterioso e fidedigno.
 
Verifica-se também que o estilo de Lucas 1-2 difere muito das lendas de heróis pagãos, assim como dos das estórias dos Evangelhos apócrifos; nestes o maravilhoso é desarrazoado ou despropositado, chegando às raias do ridículo […] De outro lado, observa-se que as narrativas da infância de Jesus em Lucas 1-2 fazem eco a numerosas profecias do Antigo Testamento. Dir-se-ia que o Evangelista intencionou apresentar tais episódios como sendo o cumprimento de vaticínios das Escrituras de Israel, principalmente as profecias de Dn 9 e Ml 3 inspiram a maneira como São Lucas dispôs e apresentou os episódios da infância de Jesus”.
 
Com dedicatória a Teófilo, ele escreveu este Evangelho para os gentios, provavelmente antes do ano 62. Observa-se Hemelsoet que “na antigüidade livros eram dedicados a alguma pessoa importante a fim de que cuidasse da divulgação. Lucas dedica seu escrito a Teófilo (At 1,1), mas sem dúvida o texto é destinado a um público mais vasto. Lucas dirige-se propriamente às comunidades gentio-cristãs”. Não se sabe onde foi redigido este Evangelho.
 
Além do prólogo, há quatro partes: a infância de Cristo (1,5-2,52); o ministério de Jesus na Galiléia (3,1-9,50); a viagem a Jerusalém (9,51-19,28); a Paixão e Ressurreição (19,23-24,53). São Lucas descreve a vida de Cristo que, ao rumar para Jerusalém, faz isto com a consciência de quem só entra naquela cidade para realizar o ato redentor da humanidade decaída. Escreve ele com raro talento literário. Os biblistas unanimemente exaltam a maneira elegante com que São Lucas se exprime em grego, a ponto de Renan ter declarado que o terceiro Evangelho é “o mais belo livro que existe”.
 
Diz Renié que “se Marcos é inigualável pela vivacidade de suas cenas, Lucas o suplanta pela fineza da observação, pela harmonia e equilíbrio da composição. Releiam-se as parábolas encantadoras, sob o simples ponto de vista literário, do bom samaritano, do filho pródigo, ou da aparição de Jesus aos discípulos de Emaús”. Tudo isto é um convite a que se estudem estas pulcras páginas, cuja doutrina teológica é, por outra, tão sublime e profunda.
 
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho